Dona Manuela Alegre
Não resisto:
D. Manuela Alegre
Morreu a D. Manuela Alegre
esta sim é que é uma notícia bem triste
sempre tão boa para mim tão generosa
chegando a tratar-me quase como um filho
posso jurar que lhe quis muito
malferido que andava pela vida
carregando às costas mil desgostos
por exemplo o desgosto de existir
ela piscava o seu olho cúmplice
onde brilhava o brilho da malícia
eu vinha de fazer vinte e um anos
que é quando o peito estala como vidro
e depois os abraços as palavras ternas
as mãos de baixo do avental saídas
sublinhando coisas que à conversa
podiam ficar quem sabe menos explícitas
era uma casa aonde entrava a música
trazida por um discreto guitarrista
de nome António que naturalmente veio
a desposar a filha da minha grande amiga
guardiã da tribo capitã de amores
D. Manuela Alegre a tudo presidia
que doçura a suas nas semanas amargas
que inteligência fina e que sabedoria
eu ia lá sonhar que da vez da derradeira
era já o encontro da nossa despedida
disse-me adeus à porta e com os dedos um beijo
na moldura magenta de Coimbra fria
aceite a família esta canhestra homenagem
o Manuel a Teresa e a geração dos filhos
sempre tão franca para mim tão delicada
tao feita de ouro puro e de alegria
Fernando Assis Pacheco
(in Respiração Assistida)
D. Manuela Alegre
Morreu a D. Manuela Alegre
esta sim é que é uma notícia bem triste
sempre tão boa para mim tão generosa
chegando a tratar-me quase como um filho
posso jurar que lhe quis muito
malferido que andava pela vida
carregando às costas mil desgostos
por exemplo o desgosto de existir
ela piscava o seu olho cúmplice
onde brilhava o brilho da malícia
eu vinha de fazer vinte e um anos
que é quando o peito estala como vidro
e depois os abraços as palavras ternas
as mãos de baixo do avental saídas
sublinhando coisas que à conversa
podiam ficar quem sabe menos explícitas
era uma casa aonde entrava a música
trazida por um discreto guitarrista
de nome António que naturalmente veio
a desposar a filha da minha grande amiga
guardiã da tribo capitã de amores
D. Manuela Alegre a tudo presidia
que doçura a suas nas semanas amargas
que inteligência fina e que sabedoria
eu ia lá sonhar que da vez da derradeira
era já o encontro da nossa despedida
disse-me adeus à porta e com os dedos um beijo
na moldura magenta de Coimbra fria
aceite a família esta canhestra homenagem
o Manuel a Teresa e a geração dos filhos
sempre tão franca para mim tão delicada
tao feita de ouro puro e de alegria
Fernando Assis Pacheco
(in Respiração Assistida)
